O que é Mito? O que é Mitologia?
April 23rd, 2008
Para poder responder a essas perguntas com precisão, devemos primeiramente abandonar o sentido que a palavra mito assumiu nos dias do hoje, como sendo uma história inventada, inverídica, uma mentira, para então podermos retomar o sentido original da palavra. Mito vem da palavra grega mithos (μῦθος) que pode ser traduzido como discurso ou narrativa. O mito é simplesmente então uma história narrada, indiferente do julgamento que façamos sobre ela de verdadeira ou falsa (ainda mais dado a relatividade do significado de verdade, principalmente quando falamos de grécia antiga).
Esse sentido original do mito está intimamente ligado a oralidade, vocalização, pois a grécia antiga do período homérico possuía uma cultura estritamente oral. Isso quer dizer que as histórias não eram escritas, mas eram passadas de geração a geração através do canto do aedo (ἀοιδός), que pode ser encarado como o bardo helênico. Aliás, aedo vem do verbo aidô (ᾄδω) que significa exatamente “cantar”. Homero, para algumas correntes históricas e literárias, seria um desses vários aedos que existiam no século IX a.C.. No entanto, há outras correntes que simplesmente descartam a existência de Homero, mas essa “questão homérica” ficará como assunto de um outro post.
Mitologia é formado pelas palavras mithos e logos (λόγος). É interessante notar que nas poesias homéricas as duas palavras são tratadas como sinônimos, mas conforme avançamos para o período da grécia clássica no século V a.C., essa sinonímia vai se perdendo, ao ponto das duas palavras passarem a adotar sentidos opostos. Enquanto mithos passou para o campo semântico do “crer”, logos passou para o campo do “saber” e da “razão”. Mitologia então nada mais é do que o logos aplicado sobre o mithos, ou seja, uma “racionalização” e “sistematização”" dos mitos. Então quando Hesíodo organizou em uma única obra, “Teogonia”, os diversos mitos gregos de origens diferentes e esparsas, dando assim uma unidade lógica a eles, estava exatamente criando uma mitologia grega.
Essa racionalização dos mitos gregos que começa com Hesíodo no século VIII a.C. irá prosseguir com outros poetas, filósofos e pensadores pelos séculos seguintes, sendo que alguns tentavam historicizar os mitos, e outros procuravam uma interpretação alegórica para eles. O primeiro intérprete alegórico dos mitos gregos foi possivelmente Teógenes, de Régia, no século VI a.C. Ele tentava buscar dois tipos de alegoria nos mitos: a alegoria física, que interpretava as divindades como elementos da natureza, e a alegoria moral, que enxergava as ações dessas divindades como disposições da alma. Outros dois grandes nomes da corrente alegórica foram Plutarco, com seu “Ensaio sobre a Vida e a Poesia de Homero” e Heráclito, com sua obra “Problemas Homéricos Relativos às Alegorias de Homero sobre os Deuses”, ambos do século I d.C.
Essa corrente de interpretação alegórica dos mitos irá perdurar por todos os estudiosos até o século XVIII, quando então o filósofo alemão Friedrich Schelling propõe em sua “Introdução a Filosofia da Mitologia” uma interpretação tautegórica dos mitos, e não mais alegórica. Isso quer dizer que os mitos deveriam ser analisados pelos seus significados próprios, internos, e não externos como fazem os alegóricos.
Essa obra de Schelling se tornou a base para o desenvolvimento de uma nova corrente de analise dos mitos, a chamada corrente simbolista, que tem como um de seus principais representantes o também filósofo alemão Ernst Cassirer. Segundo Cassier, em seu livro “Filosofia das Formas Simbólicas”, o mito é algo concreto, pois tem haver com conteúdos sensíveis através de imagens, existindo desta forma uma unidade entre o objeto e o conceito. A corrente simbólica se propõe então a descobrir a visão de mundo próprio do pensamento mítico, e por conseguinte do homem mítico, que possui categorias de pensamento próprias e diferentes do pensamento racional.
Uma outra corrente que surgiu em seqüência da simbolista foi a funcionalista, que diferente da corrente anterior, propunha uma análise do mito de forma mais prática e funcional, relacionando sempre o mito ao rito (ou vice-versa). Existem duas subdivisões nessa corrente, sendo que a primeira acredita que o rito é posterior ao mito, e portanto, um rito explicaria um mito. Já a segunda acredita que é o contrário, que o mito é que é posterior ao rito, e portanto, um mito serviria para organizar e explicar certa prática social que já acontecia. Alguns nomes da corrente funcionalista são Francis Cornford, James Frazer e Eric Havelock.
Por fim, a última corrente que surgiu foi a estruturalista, criada em meados do século XX pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss. A corrente estruturalista buscava a convergência do pensamento mítico ao racional. A idéia era perceber a lógica interna do mito através da redução da narrativa mítica a pequenas estruturas. Apesar de Lévi-Strauss ser o nome mais famoso dessa corrente, quem na verdade mais se destacou na analise estrutural do mito, sobretudo o grego, foi historiador francês Jean-Pierre Vernant.
Cada uma dessas correntes procura analisar os mitos sobre enfoques diferentes, sendo que cada uma tem suas vantagens e desvantagens particulares. Mas uma falha que todas essas correntes apresentam é o de tentar generalizar as suas interpretações teóricas a todos os mitos de todos os povos e culturas. Ainda que diferentes mitos de diferentes povos possam ter estruturas idêntica, como bem percebeu mitólogos como Joseph Campbell, um método de análise que se aplica bem a mitologia grega não necessariamente servirá também para a mitologia nórdica ou brasileira. Isso acontece porque dentro de uma mesma mitologia não existe apenas um mito de um determinado personagem ou acontecimento, mais vários, e cada um variando em pequenos detalhes um do outro. E para uma boa análise do mito, esses detalhes não podem ser deixados de lado.
No que tange especificamente aos mitos gregos, tendemos a reconhecer como “o mito” aqueles que se tornaram cristalizados pelas obras literárias como a poesia épica ou a tragédia. Mas ainda que a tragédia “Édipo Tirano”, de Sófocles, seja uma excelente representação do mito de Édipo, ela é apenas mais uma dentre inúmeras versões desse mito, e que foram esquecidas ou se perderam na História.
E não pense que a criação de mitos é apenas algo dos povos antigos e deixou de ser feito nos dias de hoje. Como eu já disse nesse artigo sobre Heracles, um mito pode sobreviver além de seus povos de origem, e isso acontece justamente pela novas versões deles que vão surgindo, seja com a continuidade da narrativa oral que se transformam de geração para geração, seja com novas obras literárias que buscam um novo olhar sobre um certo mito ou até mesmo tentando recriá-lo completamente para adaptá-lo as novas gerações. Mesmos nas mídias artísticas mais modernas como o cinema, ou inclusive os videogames, essa criação de novos mitos continua a ser feita. E eu mesmo estou criando o meu próprio mito grego com Nova Hélade. =)

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April 30th, 2008 at 11:57 am
[…] (e para entender o sentido exato da palavra mitologia usada aqui, recomendo a leitura do meu artigo O que é mito? O que é Mitologia?). E todo esse valor agregado ao Homem-Grilo, eu poderei explorar em acordos comerciais de minhas […]
May 9th, 2008 at 10:41 am
olá
gostaria de saber como de faz para recolhecer um mito?
muito obrigada!!!
May 9th, 2008 at 2:01 pm
Desculpe Karol, mas eu não compreendi sua pergunta. Como assim “reconhecer” um mito? E a qual definição de mito que você se refere? Poderia reformular sua pergunta e deixá-la mais clara, por favor.
May 31st, 2008 at 2:27 am
[…] a verdade. Quer dizer, na verdade mesmo, tô pouco me lixando pra verdade. O que me importa mesmo são os mitos. […]
June 21st, 2008 at 5:56 pm
Estou preparando um projeto de pesquisa na arte da azulejaria e gostaria de fazer uma correlação ou pinçar pontos em comum, entre os signos utilizados para decorar os azulejos e as representações do mito na historia das civilizações. Estou tentando estudar o signo (semiótica) e através de sua interpretação (semiose) identificar o mito na arte da azulejaria. Sera´que é possivel eta correlação ou eu estou confundindo as bolas? O que voce acha e será que pode me dar uma dica de por onde buscar.
Atenciosamente, julio maya
June 21st, 2008 at 8:40 pm
Oi Julio, não sei se posso te ajudar, pois minha formação é em História e Literatura e não manjo nada de azulejos ou essa parte mais artística de decoração de utensílios, artefatos ou construções arquitetônicas. Eu não saberia nem ao menos te indicar fontes onde você possa consultar sobre esse assunto.
Agora se posso te dar um conselho, tente limitar seu projeto a uma civilização específica e um período histórico bem limitado, do contrário você corre o risco de ter um projeto monstruoso que nunca será concluído, ou um então uma abordagem superficial sobre o tema.